AS DIMENSÕES DA ESPONTANEIDADE EM PROCESSOS DE MOBILIZAÇÃO: os casos dos Cacerolazos argentinos (2012-2014) e das manifestações brasileiras (2013)

Eduardo Fernandes, Guillermo Orsi

Resumo


O conceito de “espontaneidade” é um elemento que não tem sido suficientemente estudado nas ciências sociais como fator explicativo para processos políticos de mobilização. Partindo-se dessa constatação, este trabalho dialoga com o estudo Protest on the Fly: Toward a Theory of Spontaneity in the Dynamics of Protest and Social Movements, de Snow e Moss (2014), e investiga a questão da espontaneidade em movimentos sociais. Especificamente, investiga-se em que medida os Cacerolazos (panelaços) argentinos (2012-14) e o ciclo de manifestações brasileiras (2013) (ambos fenômenos classificados pelas mídias e por atores políticos dos respectivos países como “espontâneos”) podem ser, analiticamente, entendidos como resultados de ações espontâneas. Metodologicamente, foram analisadas as manifestações argentinas e brasileiras, segundo as “condições disparadoras” definidas por Snow e Moss como requisitos para ações espontâneas. Como resultado, conclui-se que ambos os ciclos de protesto apresentam algumas daquelas “condições disparadoras”, mas as manifestações não podem ser definidas, de modo geral, como “espontâneas”.        

 

 

The concept of "spontaneity" is an element that has not been sufficiently studied in social sciences as an explanatory factor for political processes of mobilization. Based on this assumption, this work dialogues with the study Protest on the Fly: Toward to Theory of Spontaneity in the Dynamics of Protest and Social Movements (Snow and Moss, 2014) and investigates the theme of spontaneity in social movements. Specifically, we investigate to what extent the Argentine Cacerolazos (2012-14) and the Brazilian cycle of demonstrations (2013) (both classified by the media and by political actors from the respective countries as "spontaneous") can be analytically understood as the results of spontaneous actions. Methodologically, we analyzed the Argentine and the Brazilian demonstrations, according to the "triggering conditions" defined by Snow and Moss as requisite for spontaneous actions. As a result, we conclude that both cycles of protest present some of those "triggering conditions," but they cannot be generally defined as "spontaneous.

Palavras-chave


Espontaneidade; Cacerolazos argentinos; manifestações brasileiras de 2013

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